Eu ainda sou o Leão do Norte
Eu ainda sou o Leão do Norte
Confissões de uma personagem que foi sempre presente na história de Pernambuco desde as primeiras revoluções até a metade do século 19. Depoimento in totum prestado a Don Antonio (na madrugada do dia 13 de janeiro de 2006, aniversário do fuzilamento de Frei Caneca, e, só agora revelada).
Eu era um garotinho quando Duarte Coelho chegou aqui por essas bandas. Não sei como fui bater por esses lados, só sei que sei que tava sempre aqui.
No começo meus rugidos não incomodavam ninguém, enquanto ia crescendo, vendo tudo que acontecia. Não era preciso fazer nada. Eu era um leãozinho quieto, na minha, não me metia em assunto que não me diziam respeitos, ou, pelo menos eu pensava assim, ou, ainda, pensavam que eu pensava assim.
Só sei que sei que o Duarte Coelho era um cara muito competente e fez o dever de casa tão bem feito, que Pernambuco foi a única capitania que deu certo, razão pela qual o imperador, invejoso, chamou-o de volta a Portugal.
Duarte foi tão maltratado pelo imperador (que nem merece ter o nome citado), que ficou tão deprimido, tão deprimido, que ali mesmo, em Lisboa, morreu de desgosto, tal o desprezo como foi tratado.
Ah! Mas aí eu já tinha saído da adolescência, Pernambuco tava crescendo, e, sabe como é que é, como majestade e líder nato que sou, não levo desaforo pra casa.
Tenho, por natureza, defender com unhas, quer dizer, com garras e dentes (muito afiados) a minha terra.
Primeiro, quiseram me envolver naquela briga de escravos com brancos, mas não entrei nessa. Eu não entendia como é que escravos caçava escravos, mesmo que fossem ex-escravos, mesmo que todos fosse ex-escravos, sejam fugidos ou do lá do patrão.
Eu ficava observando muito ao meu redor e acho que o meu espírito de luta começou a contaminar ambas as partes naquele conflito que chamaram de Guerra dos Mascates.
Nunca gostei desse negócio de botar a mão na cabeça dos outros, quando eu boto é garra mesma, boto pra lascar, nada de panos quentes, quente mesmo é meu bafo. Vou à luta.
Tenho uma irresistível paixão por devorar o pessoal do "deixa disso", tão comum nas pessoas que ficam pregando a paz, mas na hora do vamos dizer, botam pra correr. Eu não gosto disso. Nunca gostei. Eu gosto de lutar; se não quiser sofrer, não venha mexer com a minha terra.
Parece que o pessoal aprendeu a lição, que durante anos e anos, era espada pra cá, espada pra lá, e não vi nenhum conterrâneo meu levar desaforo pra casa.
Foi quando comecei a urrar, gritar, entusiasmar aquela galera de ex-escravos, índios, mamelucos, cafusos, caboclos, mulatos e até filhos de portugueses nascidos em Pernambuco.
E culminou, ou tudo começo com muita garra, quando botamos pra correr aqueles holandeses branquelos metidos à besta, pensando que ia fazer o que queria da nossa terra.
Foi aí que ví bonito: todo mundo entendendo que aquela terra, essa nossa terrinha, era, é nossa, a gente tava defendendo o nosso solo, a nossa família. Aí todo mundo virou patriota. Era patriota pra lá, patriota pra cá. Eita mundo gostoso de bão! Que alegria, sô! Era muito gostoso ser Pernambucano!
Naquelas épocas não tinha essa história de nordeste do Brasil, era Norte, tudo aqui era Norte, e, sim um estado onde o pessoal era orgulhoso e metido a briguento, era um tal de Pernambuco, que, em homenagem a mim, chamavam de Leão do Norte.
Gostei. Eu que não tinha nacionalidade, descobri que tinha uma pátria, Pernambuco. Não era Brasil, não. Era Pernambuco.
E Pernambuco foi tão humilde, simplório (e acho que até ingênuo demais pro meu instinto natural) que entregou de mão beijada (ah, se fosse com a minha pata, a coisa era diferente), entregou de mala e cuia, pro governo central no Rio de Janeiro. Quer dizer, voltamos a ser dependentes de Portugal.
Ah, que chance perdida. Mas, o que fazer? A gente tava tão metido a besta (eu devia dizer, tão metido a leão... hi! hi! hi!), que ainda achou de proclamar a independência antes do D. Pedro I.
Pra que, menino!? Pois o cara ficou pê da vida e soltou os cachorros contra a gente. Tudo isso aconteceu em 1817. Achamos pouco e repetimos a dose, mesmo depois da "independência" do Brasil, pois, como bons pernambucanos, achamos que não estávamos tão independentes assim e lascamos outra revolução, em 1824.
Vi o entusiasmo de Frei Caneca, imbuído do meu espírito, liderando a marcha de 2.500 homens em direção à Fortaleza, fugindo da morte cerca nas mãos dos soldados de D. Pedro I. Ele nunca esmoreceu. Mesmo na véspera da sua morte, animava os companheiros de cela. O maior herói brasileiro.
As coisas ficaram pretas pro nosso lado, os homens da côrte, quizeram nos cortar em pedaços. Já viram vassalos serem mais realistas que o Rei. Sim, nós pernambucanos!
A afronta foi grande demais. O mar não estava pra peixe, muito menos pra leão. Tentei me disfarçar de zebra e deu certo. Escapei por pouco. Mas muitos tombaram nas masmorras da Bahia, sob o cutelo do Conde dos Arcos, aquele babão.
Fiquei muito abalado, pois sabia que seria muito difícil D. Pedro I ficar em paz conosco. Na verdade ele confessava à surdina, que queria ver todos os pernambucanos mortos.
Hoje me encontro assim: envergonhado, esquecido, não sou mais aquele Leão do Norte tão aguerrido, com um hino tão bonito.
Estou arrrasado, ninguém mais sabe quem sou eu, e fica até difícil que me chamem de Leão do Norte, pois vai aparecer um técnico de merda e me querer chamar de Leão do Nordeste, eu, que era tão orgulhoso, forte, audaz, estou reduzido a esse pedaço de qualquer coisa que nem sei o que sou. Gostaria de honrar e que os pernambucanos honrassem o legado deixado por homens como Frei Caneca, Nunes Machado, Fernandes Vieira e tantos outros que deram à vida, não só pelo Brasil, mas por Pernambuco.
Pernambuco que mesmo decaindo após a metade do século 19, ainda tinha forças para sempre contestar o poder central, fosse de quem fosse, por tradição e por garra. Mas tudo isso, parece, está caindo no esquecimento. As forças perderam energia.
A única coisa que sei, e que ainda me faz levantar a juba de orgulhoso, é que ainda sou pernambucano. Pernambucano da gema, sim senhor!
Esse depoimento foi prestado na madrugada de 13 para 14 de janeiro deste ano, por coincidência aniversário da morte de Frei Caneca. Confesso que não me assustei e nem percebi que era uma fera, pelas condições como ele se apresentou, de tão deprimido que estava. Fiquei tão chocado, que decidi que não valia pena transcrever o depoimento. Na verdade foi um monólogo que não me atrevi a interromper, tamanha majestade que ainda transparecia manter. Acho que ele está precisando de um incentivo (Don Antonio).